Entre
Um texto mais antiguinho, só pra começar
Entre o Paraíso e a Consolação me perdi pela primeira vez, os olhos vagueando pelas torres espelhadas. O céu era cinzento e o ar repleto do ruído dos automóveis. As coisas não eram como hoje, mas como me lembro.
Entre o Paraíso e a Consolação me embrenhei por baixo das saias de concreto da cidade, muitas e muitas vezes. Tornei-me ossos e sangue, fluido e fluindo. Ali desabei exausto e novamente me perdi, carregado pelo abraço de lata e o zumbido elétrico por tantas vezes até que isso não mais fizesse sentido para mim.
Entre o Paraíso e a Consolação eu chorei. De medo. De raiva. De alegria, embora poucas vezes. E essas lágrimas se misturaram a tantas outras, de olhos que já viram sofrimentos e maravilhas tão mais espantosas e distintas que as minhas que as minhas perderam a razão de ser. E escorreram, por entre as grades e os passos para sei lá onde.
Entre o Paraíso e a Consolação eu vi o vazio. De muitas formas diferentes, embora ele fosse sempre o mesmo. A miséria da fome e dos abastados. Dos lunáticos, dos sonhadores. Vi cascatas de sonhos e moedas, brilhando sob os holofotes amarelados. Eu vi a chuva, muitas vezes. E até vi o amor.
Entre o Paraíso e a Consolação eu me sinto um estrangeiro. E por mais que eu saiba os caminhos e as praças, as igrejas e os aromas, nada mudará. Seguirei sendo pequena parte do todo que é nada entre um ponto e outro.
(abril de 2014)
Desde que me mudei para São Paulo, em idos de 2007, o metrô sempre me deixou admirado. Não sei bem o que é. Eu acho fascinante aquela montanha de concreto embaixo dos pés da cidade toda, levando tanta gente. Tanta história passando rápido em cima da gente e ao nosso lado, igualmente invisível na maior parte do tempo.
E realmente foi na Avenida Paulista, entre as estações Paraíso e Consolação, que eu pisei pela primeira vez numa rua dessa cidade. Que eu amo e odeio, numa medida que é difícil pra mim entender.
Foi essa a inspiração para o texto que você acabou de ver. Não sei quanta gente leu o que eu escrevia na época e acho que essa é uma boa oportunidade de resgatar as coisas que eu gosto mais. E é um bom jeito de começar as coisas por aqui. Espero que gostem.

